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A coluna não escrita

Então eu precisava escrever. Precisava porque o editor pediu, porque eu tinha que pagar as contas e porque a revista não podia ir para a impressão com um buraco vazio no lugar da minha coluna. A ideia do buraco no lugar da coluna não era tão desagradável assim, afinal. Seria um símbolo adequado, uma metáfora conveniente para o meu status sem inspiração nenhuma até mesmo para parir algumas linhas em cima do papel – pois é, eu ainda gosto do lápis e do papel.

Mas eu não tinha de fato nada para escrever e nem queria. Então sentei e fiquei apenas olhando, pensando se deveria ser honesto de uma vez e dizer a todos que não entendo nada de livros, de textos nem de poemas. Que sou na verdade um fingidor de segunda categoria e que mesmo assim só funciono quando estou bêbado, sofrendo por mulher e com privação de sono. Em condições normais não consigo escrever nada.

Imaginei talvez contar meu caso de paixão por uma moça no café hoje de manhã. Quando me sentei como de costume na cafeteria de sempre e havia um rosto diferente por lá. Uma mulher em uma mesa próxima o suficiente para eu me apaixonar e distante o suficiente para minha discrição me manter longe. Evitando dar início a galanteios baratos, romance fugaz e sexo. Um cenário que invariavelmente termina com um dos lados magoado – normalmente o dela –, com meus ouvidos agredidos por palavrões e algumas vezes objetos sendo atirados em minha direção.

Não levantei. Não fui. A vida da moça de óculos, vestido bege elegante e livro na mão seria mais feliz e a minha um pouco mais triste e angustiante. Conviver com a dúvida do que poderia ter sido não é para amadores.

Também imaginei escrever sobre coisas ruins da vida, já que sobre as boas todos os poetas e escritores renomados escrevem. Escrever sobre o carro indo para a oficina, a barata na cozinha de madrugada, o guarda-chuva quebrando na ventania e a topada no móvel. Isso só para começar, porque estes últimos dias não têm sido fáceis. Vontade de deixar tudo como está e abandonar a vida, fazendo a alegria dos inimigos que eu não tenho, já que um colunista de segunda categoria não tem nem leitores, nem amigos, nem inimigos.

Escrever sobre coisas ruins também me levaria a escrever sobre o relacionamento fracassado com a ruiva que conheci há duas semanas. E isso provavelmente arruinaria minha pretensão de ter uma carreira, porque se quisesse ser realmente honesto teria que compartilhar com os leitores a desfaçatez com que seduzi a moça, namorei, moramos juntos e separei. Tudo isso em incríveis duas semanas. Ninguém toleraria tamanha verdade.

Um caso tórrido que poderia virar objeto de estudos sociológicos e antropológicos ou mesmo apenas um texto clichê de rede social argumentando como ser humano pode ser vil e superficial. Uma história que poderia legitimar todas as teorias acerca da canalhice masculina.

Então também achei melhor não escrever sobre isso.

Os leitores não aceitariam a inveja provocada por esta aventura deliciosa, malsucedida e recheada de detalhes pornográficos: haveria rejeição nas redes sociais, protestos e eu estaria de fato arruinado.

O ser humano não tolera que alguém viva a vida que ele gostaria, mas não tem coragem para viver. Prefere ficar onde está, aturar os gritos das crianças malcriadas, o casamento fracassado e viver blasfemando contra pessoas que vivem de verdade – no caso, irresponsáveis como eu.

Então pensei em escrever sobre a fase da minha infância onde meus mitos e heróis começaram a cair. Descobri que papai noel não existe – tenho certeza que mais cedo que as outras crianças –, que páscoa é apenas para comer, que deus é um sacana debochado, e descobri que eu tinha muito tesão. Descobri que meu pai não era exatamente um herói, mas um pagador de contas antes do vencimento e um bom capacho do sistema, que eventualmente descontava suas frustrações usando um cinto para me bater.

Descobri também nesta fase que havia algo nas mulheres que me atraía e me tirava da racionalidade. Graças a uma vizinha três anos mais velha, que por sorte minha ou dela me escolhia sempre para as tradicionais brincadeiras adolescentes que mais parecem jogos de adultos.

Ou sobre como fui rejeitado na escola tentando me enquadrar nas tribos de jovens como um primata busca um grupo para se proteger. O clichê barato do jovem rejeitado, no meu caso uma absoluta mentira. Ou quando engoli uma moeda sem querer e tive certeza de que morreria em alguns dias – sei lá de onde tirei essa ideia –, então preferi esconder da minha mãe o ocorrido para não fazê-la sofrer de véspera. Obviamente minha morte não se confirmou, mas o sofrimento da minha mãe sim, por outros motivos.

Acho que escrever sobre essa coleção de derrotas cotidianas deixaria os leitores mais contentes, já que ao constatarem como minha infância foi uma merda poderiam sentir-se bem melhores. A constatação pelo ser humano de que o outro sofre algum tipo de calvário ou encontra-se em situação pior parece ter o mesmo efeito de um antidepressivo.

A absolvição pela escrita malfeita e desmotivada viria pela constatação de que são melhores que eu. Um gosto de triunfo lhes viria à boca e eu ganharia a paz, o pagamento pela coluna escrita e minha redenção.

Então afinal concluo que não vou escrever sobre nada, ou vou deixar assim do jeito que está. Entrego estas linhas assim como quem entrega uma parede mal pintada e diz que é rústica, como fazem os arquitetos preguiçosos.

Está feito.

– Fabricio

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