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Começos e recomeços

Luz baixa e mesas vazias. Cadeiras de madeira de lei, móveis que tinham provavelmente saído de um antiquário. Móveis que tinham ranhuras do tempo, físicas. Pensei ali na hora que eram ranhuras como aquelas que temos pelo corpo, denunciando as peraltices da infância – símbolos de uma história vivida.

Eu estava ali, sentado nesse bistrô com decoração antiga. Levantei os olhos e encarei-a.

“Vai?”, ela perguntou.
“Não sei, estou pensando”, respondi para os olhos lindos pelos quais um dia fui apaixonado.

A tela do celular acendeu sobre a mesa, mostrando uma mensagem que dizia algo sobre números, cotações e uma outra coisa qualquer. “Se eu olhar essa mensagem aí, vou ficar rica ou com ciúmes?”, ela perguntou.

Não respondi. Sinalizei ao garçom sorridente e falante que eu queria mais uma dose de whisky. Voltei o olhar para meu pequeno caderno de anotações. Na mão direita uma caneta entre os dedos de forma despretenciosa, aguardando a cabeça ter alguma ideia incrível que eu pudesse converter em palavras que depois me renderiam dinheiro quando publicadas.

“Ficaria entendiada”, respondi firmando a caneta para começar a escrever.

Então vieram as imagens de um caminhar suave em Puerto Madero, em um início de madrugada. Duas taças de vinho, um jantar e então corpos entrelaçados num hotel. Uma deliciosa rotina de cinco ou seis dias vivida intensamente como vivem dois adolescentes sem muita noção dos perigos e das responsabilidades do mundo.

Depois me veio a imagem do acordar com a varanda de casa aberta, a luz do sol nascendo e entrando pelo quarto sem pedir licença. Eu adorava aquilo, mas o que para mim era o despertador perfeito, para ela era um incômodo. Agarrava-se ao travesseiro escondendo o rosto e virava-se deitando de lado, exibindo suas pernas e acendendo meu desejo.

Foram tantas pequenas vivências com aqueles olhos verdes. Mas nosso tempo havia acabado e quanto a isso não havia dúvida.

Levantei-me deixando a dinheiro sobre a mesa e saí. Estava decretado o nosso fim nesta vida. Talvez em outra, quem sabe? Andei sem olhar para trás e chamei um táxi. Ela ficou ali sentada, sem esboçar qualquer reação.

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