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Rizotto e sexo

Houve um tempo em que estabeleci para mim um pequeno ritual, praticado nas montanhas entre uma notória estátua do filho de Javé e as gigantes estruturas de aço que podiam ser vistas a léguas de distância. Rotineiramente eu costumava passar próximo a estas estruturas me exercitando pelas manhãs úmidas, nesta mesma época.

O pequeno rito consistia em cozinhar, beber uma ou duas taças de vinho e comer enquanto mergulhava em uma profunda introspecção num estado quase meditativo. Todo o procedimento, desde a escolha da comida e do vinho até o ato de lavar e organizar tudo após o término me trazia profunda tranquilidade e uma sensação boa de satisfação pessoal. Eu estava muito bem sozinho ali no meu pequeno mundo.

Então um dia o acaso trouxe mais algúem para o meu ritual. Uma moça que morava no vale, numa casa próxima descendo pelas montanhas.

O ritual passou então a não ter mais solidão e instrospecção, porque estes foram trocados por conversa, música e sexo. Obviamente também havia agora mais utensílios para lavar após o término, mas o esforço a mais era compensado pelos bons momentos.

Com o passar do tempo fomos ficando mais íntimos e também melhorando a qualidade do sexo e da comida, resultado da prática constante. Por outro lado, a qualidade da convesa caiu sensivelmente e com ela a tolerância para os pequenos contratempos.

Todos nós temos uma espécie de verniz social que a proximidade e a convivência cotidiana se incumbem de remover. Sem este verniz ficam aparentes as imperfeições por detrás dos sorrisos forçados e das roupas bem engomadas da convivência fora do lar. Nem todos sabem lidar com estas imperfeições. Alguns vêem beleza e poesia na possibilidade de ver o outro como ele é, mas outros encontram apenas tédio e irritação. 

Eu sempre vi poesia e beleza. Porque na verdade é como se a descoberta nunca acabasse, é como se tudo fosse um único processo. Uma viagem maravilhosa de encontrar a essência de outra pessoa, onde muitas vezes acabamos por conhecer melhor a nossa própria essência. Mas esse sou eu, um louco que vive de devaneios e de rituais sem sentido em montanhas.

Infelizmente nem todos pensam assim.

E assim minha parceira de ritual foi ficando entediada, irritadiça e passou a rechaçar qualquer conversa mais evoluída. A despeito de eu ter melhorado muito a qualidade do Rizotto (eu sempre fazia o mesmo prato), ela passou inclusive a reclamar do tempero, apesar deste ser sempre o mesmo desde o início do ritual.

Um dia estávamos sentados de frente um para o outro, quando perguntei:

“O que este ritualzinho semanal é para você?”

A resposta veio rápida, direta e fria como a lâmina de uma espada numa batalha perdida:

“Rizotto e piroca só, mas acho legal.”

Fiquei imóvel ali, olhando para o prato sem conseguir comentar nada. Apenas lembrei de quando fazia sozinho o ritual e tinha como companheiros apenas os livros, os vinhos e duas velas acessas. Lembrei de como aquela quebra de rotina começou e gerou uma nova rotina, que agora parecia entediante e difícil.

A partir dali a noite terminou sem mais delongas, sem romance, sem paixão e sem amor. Estava findado o nosso ritual e estava decretada a volta do meu ritual solitário como era antes.

As montanhas perderam os belos contornos, as taças de vinho não tinham mais charme e o Rizotto ficaria sem seu paladar forte e delicioso. Eu não veria mais aqueles belos olhos no rosto angelical, fios de cabelo dela ao acaso pelo piso branco da casa nem sua voz – que mesmo quando rara, me deliciava.

Voltei ao meu ritual solitário, guardando a lembrança dos dias em que um Rizotto era o melhor prato do mundo, e a pequena casa na montanha era um pedacinho do paraíso.

Fabricio